domingo, 23 de maio de 2010

Se assuma, ser negona é massa: O cabelo como "demarcação racial"

Por: *Nega Gisa*

Saudações Aquilombadas!



É com propriedade que escrevo essa postagem, tenho vivido um dilema terrível, no decorrer desse texto irei expô-lo. O cabelo, símbolo de poder para muitas mulheres, reconhecido como tal por muitos homens, é objeto de “demarcação racial”. A dinâmica social em torno do cabelo se estabelece ainda hoje de forma racista, preconceituosa, como diversas outras. Tem-se a pele escura e cabelos encaracolados ou lisos, a mulher é considerada tudo, menos negra, denominam-a de cabo verde, moreninha, cor de jambo, cor de formiga (como eu era chamada na minha infância), dentre outras. Se a pele for clara, e os cabelos crespos, logo é denominada de negra, sarará, como dizem: “Ela é mais negra que qualquer negro de pele escura, pois ela tem cabelo ruim”.

Dentro dessas perspectivas, onde quem tem o cabelo menos crespo ganha dentro dessa sociedade racista o título de beleza, não é por acaso que salões de beleza vêem se estabelecendo como empresas de grande lucratividade. Não pela famosa chapinha que já trataram de vender a preço baratíssimo, hoje qualquer cidadã tem a oportunidade de adquirir-la. Mas, pelos mega hair, escova progressiva, escova inteligente, que hoje são produtos mais que cobiçados entre diversas mulheres, já ouvir algumas dizerem que se sentem nuas sem mega hair, não abrem mão de ficar nem se quer um dia sem ele. Normalmente os cabelos que as mulheres de cabelos crespos colocam, são cabelos lisos, destoando completamente do cabelo original, contudo não quero aqui dizer que sou contra esse procedimento, de forma alguma, cada um tem o livre arbítrio. Porém, é importante compreender que a causa dessa necessidade de ter cabelos compridos e lisos, não é pelo simples desejo de ficar mais bonita e ponto. Mas sim, ficar mais bonita dentro de padrões estabelecidos.

Vamos a minha vivência. Minha mãe não suporta o meu cabelo, e questiona a todo o tempo a forma que hoje eu o penteio, e diz: “A pessoa tem que ter higiene, arrumar o cabelo”. A falta de higiene para ela é manter um cabelo sem químicas, o chamado cabelo “black”, essa história se repeti em diversas famílias. Já ouvi vários depoimentos de amigas minha sobre essa questão, na entrevista de emprego serem indagadas sobre o cabelo, por conta disso muitas mulheres alisam o cabelo, na tentativa de ser aceita no mercado de trabalho, o que é considerado uma forma de mutilação, já que o cabelo dentro dessa perspectiva abordada é uma questão de afirmação, valorização de uma estética marginalizada pela sociedade, negada, esquecida até hoje pela mídia.

Um dia desses estava assistindo TV, quando passou a propaganda de um produto, a linha do produto se dizia afro, porém, no pote dos produtos estava estampada uma mulher com cabelos lisos. Isso é por acaso? Claro que não, a intenção é impor a estética européia, do cabelinho lisinho, ganhar dinheiro produzindo chapinhas, escovas progressivas, escovas inteligentes, que em minha opinião são escovas burras, já que aprisiona a mulher, quem disse que retocar a raiz do cabelo de mês em mês é inteligência? Não quero que mulheres que alisam os cabelos tenham raiva de mim ao ler esse texto, entretanto, o meu discurso aqui é a favor de uma liberdade estética.

Por isso mulheres, vamos soltar as nossas jubas, ditas rebeldes, assumam os dred looks, coloquem turbantes lindíssimos, vamos esquecer conceitos impostos, não podemos negar que o cabelo enquanto símbolo de poder, se transforma como legitimador do discurso a favor da igualdade racial.

PODER PARA MULHER PRETA!



Dicas:

· Use sempre produtos indicados para seu tipo de cabelo

· Hidrate os cabelos ao menos uma vez por semana

· Lave os cabelos com shampoo de preferência sem sal

· A última enxaguada deve ser sempre com água fria (estimula o brilho dos cabelos)

· Use sacador a 20 centímetros do couro cabeludo

· Evite molhar os cabelos e prendê-los

19 comentários:

Tamiz Lima disse...

A questão do cabeloo envolve várias questões, e também sou vítima de inquietações a respeito.
É complicado você criar um tabu que negras obrigatoriamente tem que usar blacks, porém não se pode negar que existe uma rejeição da sociedade intensamente preconceituosa.
Gosto do liso, mesmo atualmente usando tranças e já ter usado muito o cacheadãoo. Só acho que não se deve cair na besteira de usar o mesmo critério de jugar a pessoa e sua consciencia negra pelo cabelo. Como colocado, cada um faz suas escolhas, o que se deve questinar, é o que levou a essas escolhas serem feitas.

Belo blog.

Celso disse...

É isso aí nega, vamos fazer o exercício do pensamento, da crítica e da reflexão, estou gostando do blog.

Unknown disse...

Obrigada querido Celso...E o objetivo é esse mesmo, refletir e trazer reflexões!

Unknown disse...

Eu como Gisa tenho muita propriedade em falar sobre cabelos, felizmente vivo num contexto familiar que não recrimina a forma como uso meus cabelos, mas não numa forma politica e mas sim de forma estetica, uma moda, um modelo a ser usado e seguido, mas por detras disso existe uma questão de afirmação de não viver subordinada a certas regras impostas pela sociedade e tbm pelo fato de chocar e evidenciar que agora mudamos os padroes de beleza e que nos assumimos tbm como bel@s!

Diggo disse...

Delícia de texto! Por isso, respeitem os meus cabelos (,)brancos!

Unknown disse...

Amiga que lindo seu blog,vc esta de parabéns,
Beijão
Mariza

Luane Lopes disse...

Querida,
Já tinha conversado um pouco com você sobre esta questão...
Tudo isso é tão verdade, é incrível como as pessoas tentam nos seduzir e impor padrões de beleza...Alegam que a sociedade é assim...
Mas eu acho que cada qual sabe o que é melhor pra si, que cada um viva à sua maneira e assuma com atitude as consequências, que infelizmente existem, numa sociedade preconceituosa!

Parabéns!

Anônimo disse...

Ser negr@ não é facil não....

Ass: Fred

Lorena Morais disse...

Soltar a juba é fácil.
Difícil é enfrentar os preconceitos e limitações.
Mas quem disse ser impossível?
Vamos fazer a REVOLUÇÃO BLACK: CABELOS CRESPOS AO VENTO!

Sócrates Júnior (koka) disse...

Que texto perfeito.. a minha mana e algumas primas tem o cabelo lindo, mas estragados por essa onda de escova.. Esticaram os cachos e fizeram a pior coisa que pode acontecer, negras com traços lindos e o cabelo chapado.. fica muito gritante.. eu nao gosto.. prefiro in natura.. fica muito mais bonito e excitante.

Kaiala?! disse...

É importante que antes de adotar o visual se tenha e seja assumido a consciência de sua negritude.Acho lindo cabelos cacheados,naturais,alisados de qualquer tipo desde que sejam bem cuidados que é bastante dificil nos cabelos crespos( digo por experiência propria).O fato que me incomoda é o ser black,rasta,etc apenas por modismo.De que adianta adotar e continuar sendo moreninho? assumir a raça é fundamental,o fato de adotar os cabelos contribue neste fator também,mas confesso que não concordo em seguir sempre esta regra e sim a de impor a sociedade que sou negra quando me chamam de morena ao alisar os cabelos e questionar,bater o pé quando dizem que não( ô peste). Mas o que dizer dos negros que nascem de cabelos lisos como o meu avô? vamos assumir a negritude, o crespo, o liso, o colorido... a escravidão aparentemente acabou.Vamos "ser" negros.aff meu povo broca!Adorei o tema.

Alguem louco disse...

Rastafarai é um movimento religioso que proclama Hailê Selassiê I ... Porém os Dreadlocks (dread) tornaram-se famosos com o movimento rastafari. Temos ainda o mau hábito de chamar pessoas que usa dread de Rastafari, sem se permitira dar o trabalho de diferencia ambos.
Ou seja Dread é uma coisa e ser Rastafari é outra coisa!


Utilidade publica

Risos


Mas, nessa vibe ainda de cabelo tem uma poesia que acredito que respondeu o que eu penso.. com objetividade....

Ferro

primeiro o ferro marca
a violência nas costas
depois o ferro alisa
a vergonha nos cabelos
na verdade o que se precisa
é jogar o ferro fora
é quebrar todos os elos
dessa corrente
de desesperos.

Cuti. Negroesia (antologia poética)
Axé
Ismael silva

De Kaiala disse...

Isso mesmo rasta, dread com seus significados mas do jeito que as pessoas falam. Acho que ficou claro que o que esta em voga é sim como são chamados mesmo, o conceito é importante e diferenciar tbm,pelo visto não foi entendido...Na real que todos os conceitos,modos de chamar sejam respeitados vamos celebrar !

Alguem louco disse...

Eu estou com dificuldade de entendimento. Entretanto ratifico que, compreender as nomenclaturas a qual somos rotulados, e ter cuidado em utiliza é de grande importância para desconstrução de tantas coisas.... ou etão iríamos aceitar que ate hoje alguém nos chamasse de: Pretinha, morena, de moreno, de mulata ou mulato, de negra maluca, cor de formiga, coitadinho... etc... etc... e várias outras palavras deprecativas.... por isso que tenho o trabalho de diferencia uma coisa da outra!

Temos que ter o cuidado não mistura tudo para não banalizar

Rasta é uma coisa e Dread é outra!
Axé!

Ismael silva

De Kaiala disse...

Tsc tsc para seu entendimento Ismael apenas confirmei em tom de deboche o que vc citou....tsc tsc
Continuamos a celebrar....rsrsrsr

Alguem louco disse...

Huuumm é que tenho dificuldade mesmo de entendimento... Obrigado pela ajuda! risos..


gratooo de qualquer sorte


Ismael silva

De Kaiala disse...

Ai é vc qm diz, me inclua fora dessa.rsrsrsrsr a questão é é pertinente super interessante mas ai Gisa teria que postar outro ponto.rsrsrsrs
Vamos voltar ao cabelo que adoooooooooooooolro!!!!

Alguem louco disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Alguem louco disse...

Kkkkkk (...) estava lendo hoje um texto muito bacana, que falava justamente sobre essas esquizofrenias que vivemos por conta de várias coisas que nos negaram .... e ate hoje não sabemos conviver com nosco e com todas as nossas especificidades (beleza..) foi um dos danos..... e acho que Bell Hooks foi bem feliz nos dois texto dela.. quando ela fala sobre cabelo e quando ela fala sobre ausência de amor. Por conta do processo de exploração (escravidão) ela diz basicamente “ que as famílias negas necessitava se mostrar forte e firmes. E com isso privava as crianças de afetos , de amor , de carinho... para que eles e elas sejam forte para encarar a vida” e isso tem um impacto ate hoje!
somos ásperos, e rude com os nossos ... ate hoje, temos dificuldade de demonstrar carinhos, afeto. Por acreditar que isso é mostra fragilidade. E o efeito disso é desgraçado....


acho que podemos postar esses texto.. qualquer coisa eu tenho eles no e-mail

axé!

Ismael silva

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