Estava eu, em uma dessas madrugadas em que fico na internet, quando uma amiga manda um link de uma reportagem, quando abrir o link vi mulheres negras enfileiradas, como num desfile de moda, todas lindíssimas. A chamada da matéria dizia: “Walter Rodrigues abre Fashion Rio com 25 modelos negras”, achei maravilhoso, a beleza negra é tão marginalizada, que colocar vinte e cinco modelos negras na passarela, é algo o mínimo inusitado, e de muita importância para a valorização da beleza negra. O problema foi que, quando li o subtítulo da matéria, entendi o porquê ele escolheu modelos negras, e o porquê, a matéria estava dando destaque às modelos negras, dizia assim: “A coleção de verão 2010/2011 da marca se inspirou na África e em sua influência no Brasil”. E achei tudo muito lamentável.
È claro que eu acho ótimo que mulheres negras desfilem, inclusive e principalmente se esse desfile é todo concebido por modelos negras. O problema é que, insistem nessa idéia separatista, para desfilar coleção inspirada na África modelos negras, para outras coleções, modelos branquíssimas de preferência, raramente se vê modelos negras. Grandes parte dos estilistas escolhem modelos apenas brancas em seus desfiles, isso é fato, inclusive ninguém estampa isso em matérias. A idéia de que não queremos um país separatista, é só para quando o discurso é contra as cotas? Essas situações cotidianas não são separatistas, discriminatórias, preconceituosas? Fica aqui o questionamento.
O texto ainda ressalta a falta de modelos negras nas agências: “A coleção de verão 2010/2011 da marca se inspirou na África e em sua influência no Brasil, da à escolha do estilista, que teve dificuldade para encontrar 25 modelos negras, já que é pequena a proporção em comparação com as modelos brancas nas agências”. Essa afirmação é no mínimo ingênua, o preconceito em aceitar modelos negras é tão grande que, quando surge um desfile como esse, onde se precisa de negros, a demanda não pode ser preenchida. Na verdade, eu achei essa
conversa um pouco contraditória, talvez a dificuldade fosse, em achar negros com traços europeus, enfim, isso é só uma suposição, não posso afirmar sem a certeza dos fatos.
O destaque que o negro tem muitas vezes nessa sociedade racista é esse, o objeto exótico. Quando é de interesse próprio valorizam-se os negros, se ganha dinheiro com algo que no cotidiano discrimina-se, o importante é lucrar. E eu me pergunto, e te pergunto qual o lugar do negro nessa sociedade preconceituosa? Será sempre o de subalterno? O exótico?
Foto: Fábio Motta

